domingo, 26 de junho de 2011

Do que serve dizer ao mundo
Que a centelha de amor que vem de Deus
Torna-se cada dia mais humana
E que o amor que diz o poeta
Seja o reflexo do amor que sinto por ti
E as desrimadas linhas
Escritas por um sonhador
Não servem como reflexo do amor
Pois amor não se escreve

Tento em meus dias
Encontrar a forma certa do amor
Mas só encontro significado em ti
Que serve de inspiração e consolo
Para este pobre sonhador
Que sonha com o amor
Como a semente com a terra

Mas os frutos do meu amor
Não posso te entregar
Pois entrego meu destino à ti
Que será para mim o norte
O sul
Talvez a morte
Talvez o céu azul

Mas nesse céu
Não há espaço para minha dor
Pois o universo infinito
Se torna o menor já visto
Perto do tamanho do meu amor

                                               Nepomuceno Alves

quarta-feira, 8 de junho de 2011

A flor do meu amanhecer

São só pra ti meus olhares
E de ninguem mais meu coração
É só teu meu amor
E só de ti me vem inspiração


Meu receio é te perder
E meu medo maior é não te ver
Sois pra mim a mais bela
Dentre todas aquelas
Que um dia fitaram meus olhos


E nunca mais quero perder-te
Pois tem contigo meu coração
És tu a luz da escuridão
Que entre sombras ilumina o peito meu



Mesmo sabendo que é teu

Meu coração se desespera
Ao ver que em ti esmera
Toda a beleza do amanhecer


                                                                "Você é meu raio de sol. Não me deixe só aqui na escuridão das minhas magoas"
                                                                 Nepomuceno Alves
                                                                  Lavras, 08-junho-2011

domingo, 5 de junho de 2011

Impossiveis

Tenho uma história
Que com muitas se parece
De um amor que cresce
No silêncio de uma prece

Um amor se forma
Com a dor da incerteza
Se viverá
Ou com a dura duvida
Se morrerá

Olhares se trocam
E se formam renovados
Com a dor da distância
De alguns simples passos

São olhares apaixonados
De uma paixão impossível

Ele, não pode olhá-la com olhos da carne
Ela, não sabe o que fazer

E assim se enamoram
Pouco a pouco
Sem a garantia do futuro
Nem a certeza do muito amar

Ele escreve versos
Que com gosto entregaria
A sua amada guria
Que ele não pode amar

Ela canta versos
Que à ele são oferecidos
Sem ele saber
Que dela vem o amor arrependido

Amam-se assim os jovens
Que jamais novamente amarão
Por saber que este certo amor
Jamais lhe abandonará o coração

E o sonhos seus de um dia viver
Param como estacas
Num futuro que nada resta
A não ser morrer
                                   Nepomuceno Alves
                        Lavras do Sul, 05-junho-2011

domingo, 29 de maio de 2011

Assim se faz a vida

Oh vida! Minha vida
Que hoje surge como navios em guerra
De um sonho acabado
E um sino anunciado
De um povo sem esperança

Oh querida! Minha querida
Supere seu amor como uma rosa
Que supera as abelhas
Que lhe roubam mel

Oh lua! Minha lua
Espere que um dia o sol volte
Trazendo o seu brilho

Oh dor! Minha dor
Voe para longe com os pássaros
Viva sua vida sem mim
Porque eu não sei viver sem você

Oh linda! Minha linda
Viva seu amor radiante
Sem temer o futuro ou o passado
Viva as poesias que o povo canta
Sem fazer delas sua vida

Oh morte! Minha morte
Seja doce consigo mesma
E agre comigo
Que por não saber viver
Mereço seu castigo
                       
                                                           Nepomuceno Alves
                                                Lavras do Sul, 29-maio-2011

quinta-feira, 31 de março de 2011

Do navio à senzala


Vou contar-lhes uma história
De um amor poliango
De um sonho trazido
No fundo de um navio
Onde um amor surgiu
Em meio a dores e chibatas

Amor correspondido
De um negrinho franzino
Pela negra donzela rainha
De uma província vizinha
De onde foram arrancados

E a negrinha também gostou
Do negrinho franzininho
A quem apelidou de engraçadinho
Por ser o mais feio do navio

Desembarcados em outra terra
Marcados como bois importados
Trazia o negrinho no peito
Uma alegria e um ardor
Por ser aquele amor
Tão correspondido no barco

E separados tão logo
Foram levados a longínquos lares
De gente desconhecida
E de santos em altares

O negrinho pra senzala foi levado
E como um potro recém domado
Foi tirado de seus direitos
De liberdade e opiniões

E apanhava sem porque saber
Como um corcel indomado
Porém o negrinho ressabiado
Sabia o que fazer
Mesmo assim sem opções ter
Apanhava noite e dia

Mas a dor nem castigava
Pois nos olhos ele levava
A imagem meiga da sua rainha
Que tão breve encontrara
E tão breve perderia



E apanhava o negrinho no troco
Quando sem saber por quê
Foi chamado a casa grande
Para buscar tão distante
A filha do seu sinhô

Recebeu uma só regra para cumprir
Não olhar nem sequer sorrir
Para a filha do sinhô
Ou para a escava que vinha junto
Para a “pobre” sinhazinha
Sozinha não viajar

Foi pela estrada
Sozinho a pensar
 -Que diacho vou falar
Se nem conheço a tal escrava
Nem sequer essa sinhá desgraçada
Que me fez sair da senzala

E assim seguiu caminho
Sempre lembrando a regra
De nem sequer a cabeça erguer
Nem um lábio mexer
Para a tal sinhá e sua escrava

Quão grande surpresa teria
Ao ver que acompanhava a donzela sinhá
Sua escrava rainha
E nem um breve sorriso
Ou um pequeno esboço tímido
Poderia ele soltar

Levou as duas pra fazenda
Alegre e temeroso
Que faço eu- pensou sozinho-
Se tão perto da minha amada
Nem ao menos posso tocá-la

E a negrinha sorriu
Quando o negro franzino
De nervos e risos finos
Mal cabia em alegria
Por seu amor reencontrar

A negrinha foi pra casa grande
E negro pra senzala voltou
E de noite apanhou
Por demorar pela estrada

Mas como seria rápido?
Mal se agüenta em si

E o negrinho apanhava
E pela janela da casa
A negrinha deixava
Uma lagrima rolar

Passou o tempo
E sempre lá estava
A negrinha molhada
De uma triste lagrima
Na janela a rolar

Sequer uma palavra
Os dois trocavam
Apenas olhares marcados
Com a marca da escravidão

E com o tempo
O sinhô da casa grande
Virou os olhos pra negrinha
Com pensamentos obscenos
Levou a negrinha pra cama

Foi a primeira vez da mucama
Que guardava na magia de um sonho
O tal momento ao seu amor

Foi também do negrinho
A maior dor
Que pela primeira vez não veria
Sua amada rainha
Na janela a lhe mirar

Custou mas sorriu de novo
A ver na madruga clara
Sua negrinha machucada
E em lagrimas molhada
Por ser uma escrava
Que nada podia fazer

O negrinho em raiva
Jurou que ainda matava
Aquele maldito sinhô
Que do seu amor abusou
E o seu sonho massacrou



Mas a negrinha falava
Que de nada servira
Pois outro sinhô viria
E poderia ser pior

Mas o negrinho em raiva
Mal sequer ouvia e escrava
Que pela primeira vez lhe falara

E negrinha dizia
Deixa que assim ocorra
Meu coração é teu
Acaso queres que eu morra
Se matar o sinhô
Irás junto pra o caixão

A essas palavras
Com espanto o negrinho pensou
 -É maior a dor de amor
Do que a dor da chibata
Ao menos a chibata vai e volta
E essa dor que parece traição
Fica cravada no meu coração-.

Voltando a negrinha pra casa
Deixou o negrinho franzino
De apelido engraçadinho
Pensativo na senzala

Ainda com grande raiva
O negrinho se acalmou
E de leve um suspiro deixou
Em uma triste manhã
De uma noite mal dormida

Mas ainda com raiva
No amanhecer do dia
De sorte o negrinho se erguia
E atacava com uma ira
O senhor que noite antes
Abusava de sua menina

Mas o negrinho era franzino
E ainda por cima mal dormido
Foi dominado pelo sinhô

E esse ainda com mais raiva
Mandou o negro pra senzala
E nem pão nem água
Ao pobrezinho servia
Caindo uma noite escura
De rancor a amargura
Levaram o negrinho pro tronco

Pensou sozinho de novo
É menor a dor da chibata
Do que desse amor que me mata
Por dentro de tanto sofrer

Mas o negrinho era fraquinho
E apanhava noite e dia
E fraco nada conseguiria
Agüentar da ira do sinhô

E dessa vez foi mais forte
Cada laço de chibatada
E em gritos horríveis
Ficava o negrinho no troco
A chorar não por dor
A eram lagrimas de um amor
Tão forte e tão perdido

E a negrinha chorava
Chorava como criança
Eram lagrimas de sangue
Lagrimas de quando morre a esperança

E o negro no tronco continuava apanhando
Até que o sinhô maldito
Viu a negrinha na janela
E querendo seu corpo
Obrigou a negrinha a deitar

E foi ainda mais forte a dor do negro
Que de tanto apanhar
Foi os olhos fechando
E neles a imagem do amor
Com um maldito sinhô a beijando

E o negrinho foi caindo
Na poça do próprio sangue
E no coração sentindo
Uma dor irrelevante



E o negro morreu no tronco
E a negrinha mais triste ainda
De dor também morria
Na cama do maldito sinhô

                                   Nepomuceno Alves
                        Lavras do Sul, 16-março-2011